A Arte de Ler e Escrever no site Campo Grande News

Como atingir sucesso com a escrita.
Toda atividade humana pede sucesso. Sem expectativa de sucesso a vontade morre e a ação é paralisada. Assim é o ato de escrever: aspira por leitura e compreensão, almeja desembocar nos oceanos em que se debatem e evoluem leitores e escritores.
O termo "almejar" só tem sentido verdadeiro se a coisa desejada estiver sendo contemplada, realmente, pela "alma" do interessado. Só existe bom sucesso nas coisas em que, na feitura, o coração foi colocado. Claro, é preciso que cada qual defina, para si, o que significa ser vitorioso.
Há vitórias nem sempre reconhecidas de imediato ou mesmo entendidas como tal. Outras permanecem apenas como realidade do campo íntimo.
Externamente o sucesso é uma avaliação da sociedade, do mundo, mas, só será verdadeiro se povoar a interioridade do ser, e é aí que ele se fará duradouro.
Não se adquire conhecimento sem comunicação, e, formalmente, um dos meios mais organizados e seguros de comunicação é a escrita. O que se escreveu e se encontre disponível, pode ser testado e interpretado ricamente a qualquer tempo.
Claro, o olhar e a atitude dizem mais, de imediato; porém, o que eterniza é o registro material. Veja os fósseis, leia a natureza, leia um livro.
Um dilema pode se nos oferecer: Seremos, ou não, bem interpretados, entendidos, após escrever? Isso pode se tornar uma riqueza imaterial. Claro, não seremos entendidos o tempo todo, como queremos. Não devemos, entretanto, nos apegar às nossas obras de um modo doentio. Deveria nos bastar o sermos apreciados e, de algum modo, ajudar a mover o mundo.
O maior sucesso para a escrita pode ser o não fazê-la em nome do sucesso. O que seja genuíno não nasce necessariamente para agradar a "A", "B" ou "C".
Os maiores tesouros atuais da escrita, foram menosprezados ao tempo em que se apresentaram ao mundo. Veja o Evangelho, pense em todos os mártires que escreveram suas cartas com sangue.
Agora o mundo conta com milhões de escrituras. Quem se prestará ao trabalho de peneirar?
O mundo da escrita tem todos os tons, todos os terrenos, todos os sabores. Quem saberá degustá-los?
Uma coisa é certa e respeita à questão dos frutos bons ou maus conforme a árvore. Desafiam inteligências e apontam vida abundante ou desenham a morte sem dissabores nem conquistas.
Mas, de que natureza será o bom sucesso da escrita? O êxito excelente é daquele que faz pensar, acima do sorrir ou chorar.
Bem sucedido é aquele que, feliz com o seu filho livro, semeia sábias palavras... Palavras.
Em tese, qualquer pessoa sabe escrever. Mas, como dar brilho e significado especial ao que se escreve? Não importa o assunto, mas, sim, como se aborda. O primeiro passo é a originalidade.
Não se trata de "descobrir a roda", mas, sim, de dar um novo sentido às coisas.
Escrever é ler. A escrita equivale ao modo com que se leu. Quem escreve "assim", é por que foi "assim" que leu o mundo. Você identifica o leitor pelo escritor. Pelo escritor se lê o leitor.
Leia algo ruim e você saberá o quão ruim é o que o escritor leu; terá sido sofrível o seu modo de ler a vida – as linhas do tempo nas ocorrências do mundo.
Certo, há escritores que só lêem a si mesmos. Aí você encontrará o egoísta, aquele que, tão habituado ao monólogo, adota o monoideísmo.
Escrever, todos podem. Mas nem todos querem ler. A falta do hábito de ler gera o hábito de não ver. Quem não vê, não lê e não escreve em verdade. Há vidas que, por pouco, não passam de um balbucio.
A escrita eterna é aquela que nasce da alma. Entretanto, essa chave para a eternidade está na boa forma ou no bom formato. Então, a estética movida pelo coração é aquela que permanece e faz o escritor.
Não se deve operar apenas em nome do reconhecimento imediato. O tempo é o senhor; é o bom fermento que ilustra o escritor, e é também o que demonstra, talvez, a inconsistência de uma obra. Note quantos escritores incensados pela mídia desaparecem, enquanto outros, humildes, porém seguros e originais, desafiam o tempo.
O melhor para o escritor é o ser descoberto. Aquele obrigado a anunciar-se, insistentemente, mal percebe a própria inconsistência.
Há, porém, aqueles que, mesmo sendo consistentes e bem qualificados, padecem a indiferença, o ostracismo. Esses são protegidos do tempo, tempo que em algum tempo levanta-os, leva-os a resplandecer.
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Guimarães Rocha é Escritor, Poeta e Membro da
Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL)


