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Depoimento do jornalista Gutemberg Honorato

Escritor Reginaldo A. Araújo
Gutemberg Honorato
Sobre ter presenciado o recorde literário: Essa é uma coisa difícil de se fazer, porque requer preparo e conhecimento. Além disso, o feito de Guimarães, de ficar 15 horas lançando os livros e declamando poemas ininterruptamente foi um feito que até agora continua inédito, mas que, infelizmente não teve o reconhecimento que merece. Os alunos que lá estiveram se mostraram bastante atentos, apesar do público que presenciou ter sido bastante rotativo. Acredito que este tipo de iniciativa motiva os estudantes, que deveriam ser incentivados a sempre estar participando de eventos como esse, porque essa participação gera crescimento, em termos de cultura. O fato de existir um recorde como esse já poderia abrir espaço para que mais pessoas sejam motivadas a apreciar a literatura, que a meu ver, é algo essencial para o aprendizado. Apesar do advento da internet, creio que esta nunca irá substituir a satisfação que se tem ao abrir e folhear as páginas de um livro.
 
Sobre um possível reconhecimento deste feito do poeta Guimarães Rocha: Acredito que, havendo esse reconhecimento, haverá também uma valorização do trabalho dos escritores. A literatura contribui para a formação do pensamento crítico dos cidadãos e ajuda a despertar a criatividade. A palavra escrita é a grande responsável pelo surgimento de muitas coisas que existem hoje, muitas das maiores invenções devem muito à palavra. Portanto, acho que quem não tem acesso à literatura, conseqüentemente não terá nenhum acesso à cultura.
 
O recorde por um despertar cultural
(Quem sonhou só vale se já sonhou demais)
 
 
O Recorde Poético Guimarães Rocha foi atentamente acompanhado pelo mundo estudantil. Aconteceu a 24 de agosto de 2001, no teatro da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB (Avenida Tamandaré, número 6.000 – Jardim Seminário) em Campo Grande-MS a partir das 07h e até as 23h40. O livro de presença recebeu mais de duas mil assinaturas.
 
O evento foi acompanhado e documentado por equipe técnica da UCDB, com observação da Coordenação de Cursos e Reitoria. Os recordes alcançados: a) o maior tempo (mais de 15 horas) de declamação ininterrupta de poesias inéditas e de autoria do próprio declamador; b) a maior quantidade de lançamentos de livros (15 títulos) com poesias inéditas, pelo próprio autor, num único dia, seguidos de distribuição gratuita dos exemplares; e ainda um destaque internacional: o primeiro policial poeta a estabelecer recordes poéticos em todo o mundo.
 
Quem sonhou só vale se já sonhou demais
 
P – Você testemunhou o Recorde Guimarães Rocha?
 
Gutemberg Moura – Sou testemunha. Ele cumpriu o que foi prometido, como noticiado pela imprensa (Correio do Estado, Campo Grande-MS, 27 de agosto de 2001). De fato, como foi escrito, “o poeta não saiu do palco em nenhum momento da maratona e esteve acompanhado de oito músicos, que se revezavam a cada duas horas”. Eu mesmo ajudei a descartar sua urina por vários momentos – a micção ele praticava estrategicamente, da tribuna, em recipientes descartáveis.
 
P – Como foi a sua experiência de participar do evento?
 
Gutemberg Moura — A Canção do Novo Mundo (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), tão conhecida na voz de Milton Nascimento, diz: “Quem sonhou só vale se já sonhou demais”. De início a gente tem a impressão de que é maluquice, um absurdo, um sacrifício talvez inútil, recitar continuamente todas aquelas poesias. Será que haveria algum resultado prático desse empreendimento, diante da indiferença que se vê, principalmente a respeito das produções literárias locais?
 
Mas fiquei surpreso, pois a juventude, ainda que tenha sido motivada a comparecer, primeiramente pelo fato de ser uma atividade proposta pelas Escolas (públicas e particulares), manteve comportamento receptivo e atencioso diante dos assuntos tão seriamente tratados nos livros de Guimarães Rocha. Ficou assim: até os mais céticos mostravam-se seguros e confiantes quanto às mensagens que ouviam. Ficaram impressionados, leram acompanhando as declamações, refletiam, riam. Só por eles saberem e se convencerem de que há um exemplo positivo, valeu o evento. O feito é uma referência; uma voz chama à sensibilidade. É bom saber que ele, o poeta sonhador está ali. E o que ele fala, existe. Então o sonho é real.
 
P — Em sua opinião qual pode ser o resultado (prático) desse trabalho do poeta, considerando a educação e cultura na sociedade?
 
Gutemberg Moura – Você chegou ao ponto. Esse é o objetivo do sonhador louco. Sua loucura é – sacrificando a sanidade dos que se quedam no cantinho “normal”, em vez de marchar “quietinho” –, chorar, gritar, saltar e rir, pedindo que as pessoas encontrem a mensagem da poesia em suas vidas. O efeito da sua maratona é chamar a atenção para a literatura.
 
A literatura não desaparecerá jamais. Ela é a estética do verbo. A tudo a letra identifica, desde o primeiro ato conhecido ou declarado: Faça-se! E tudo se faz. Da letra chegamos ao livro, mídia, fizemos o computador, e ascendemos para o virtual, o energético-vibratório, o quantum, o todo-espírito.
 
Tudo é literatura. O prazer de folhear e degustar um livro não desaparecerá (sofrerá, é certo, transformações), pois esse é o instrumento mais eficaz para se aprofundar no estudo e conhecimento concentrado das palavras – fonte inesgotável de poder.
 
Até o futuro da Internet depende do uso que se fizer da palavra, a maneira pela qual o pensamento for escrito e conduzido. A palavra escrita é a mola propulsora de toda a realização. Guimarães Rocha é um artista da palavra.
 
Naquele evento o público flutuante (que se revezou durante mais de 15 horas) passou de quatro mil pessoas. Esses leitores se multiplicaram e, se antes o poeta já era bem conhecido, agora, oito anos depois, certamente é um dos mais lidos.
 
Reconhecer o recorde do Poeta será, para o Guinness Book, a prática de uma função social por difundir uma ocorrência de utilidade geral, e mais, resultando em releituras do conteúdo de elevado valor moral e filosófico entregue por Guimarães Rocha – intelectual teimoso na tentativa de alavancar a poesia e a literatura de Mato Grosso do Sul.