Uma síntese de estilos no talento de Leal de Queiroz

Um homem que não coube em si mesmo e quis compartilhar poesia e prosa.
Ao fazermos uma crítica sobre a obra de Francisco Leal de Queiroz, encontramos mais que as expressões da materialidade presente, ligadas aos atos e feitos decorrentes das variadas posições que o homem ocupou e ocupa na sociedade, na experiência de vida que transcorre.
O livro “Leal de Queiroz — poesia completa e alguma prosa”, publicado neste ano sob a égide da Academia Sul-mato-grossense de Letras, passa de dar conta do feixe poético, formidável currículo e folha de serviços prestados pela persona grata ao Estado e ao País.
Francisco Leal de Queiroz, natural de Paranaíba, filho de tradicional família, formado em Direito, já em 1949 era promotor de justiça em sua terra natal. Sendo político destacado, foi deputado estadual por três legislaturas, prefeito de Três Lagoas (1958), secretário de Estado que ocupou várias pastas em momentos diferentes do nosso enredo histórico, de que se tornou um vulto. Desempenhou diversos outros papéis de primeira plana em Mato Grosso do Sul. Reside em Campo Grande e é presidente da Academia Sul-mato-grossense de Letras.
Nas partes do livro intituladas “Pequena História de Paranaíba” e “Dois Discursos e Três Crônicas”, mostra-se elemento harmonioso no plano intestino da conjuntura sócio-política, ocupado sempre com a ordem e com a justiça, impondo para si a profissão como sacerdócio — diferentemente do que muito se vê agora no âmbito das profissões, os ofícios tidos ou tratados principalmente como alavanca para amealhar dinheiro e acumular poder, na busca menor de projeção pessoal e inserção social privilegiada.
Nos contornos históricos que re-delineia, Queirozinho acrescenta a preciosa oralidade com autoridade na transmissão e retransmissão dos fatos e do seu conhecimento. E, do que testemunhou, oferece confiável depoimento.
Em “O Violino das Galeras”, um conjunto de textos trazido a lume ao final dos anos 40 (e incluído hoje na obra completa), com o autor empolgado pelos colegas da antiga Faculdade do Catete (Rio de Janeiro), uma pureza patrizada comanda os versos. O lápis do poeta ousa criar e recriar diálogos extraídos do mundo subjetivo em conclusão de probabilidade e ambientação emocional, para inseri-los à vontade na experiência dos heróis da Inconfidência Mineira. Como diz, “(...) uma carta na mesa do destino/não pode mais,/nunca,/ser devolvida/às mãos de quem jogou...” – (página 121).
“Enquanto a Lira Tange” é uma construção literária (incluída no início do livro) que, se saída da pós-adolescência, traz, porém, pronta e acabada, a síntese de uma história pessoal, galvanizadora, no entanto, imemorial, agregadora de estilos.
Ele profere o “grito primal” — de um vigoroso poeta recém-renascido: “minh’alma é uma tapera/perdida numa beira de estrada” (página 59). A meio-caminho, se inquieta diante dos mistérios da vida: “Os nossos sentidos são bancos públicos/instalados/num jardim qualquer de uma existência...” (página 57), e aí ele é bilaquiano.
O homem desponta e diviniza os primeiros e puros sentimentos, de envolta a multimilenárias indagações: “a vida não é para se ver, mas se contemplar...” (página 20) — “veio uma vaga e me disse:/deixe a tristeza de lado,/passa comigo a vagar...” (página 39), já contemplando, como Casimiro de Abreu, o modernismo com liberdade de criação estética.
O amante ensaia as asas: “Em meio do caminho te enxerguei:/tinhas os olhos nos céus,/dois cravos crucificando/as estrelas dependuradas/como botões de flores sorrindo pelas manhãs...” (página 63) — “...e voa/ao encalço das estrelas...” (página 97), lembrando o arcadismo, a última fase do classicismo.
A incessante busca de amor: “como os vergéis, também,/os corações/devem ser cultivados...” (página 50). Rendido aos encantos de mulher: “Por que me iludes com teus beijos tais,/com tuas juras, se teus carinhos são/espinhos na roseira dos meus ais?...” (página 68), uma pincelada do barroco brasileiro.
Os sinais de amadurecimento no cadinho das dores, cravados nas linhas e entrelinhas da poética: “No coração, caramujo do peito,/a saudade é a ressonância/de quem se nos esqueceu...” (página 51) — “As folhas secas dos meus sonhos/o calor de um beijo fê-las cinzas,/as cinzas um vento norte as carregou/numa canoa feita de Saudade...” (página 57) — “Imagem viva da saudade: pétala que sorri no jardim dos anos,/perfumando os desenganos,/amortalhando os sonhos...” (página 100), bem ao tipo machadiano e de Ramalho Ortigão.
O contemporâneo conflito da alma que busca uma atualidade de extravasamento. “Deixei a esmeralda das águas/levar meu recado às praias/ensolaradas.” (página 64) — “...e o silêncio profundo,/vazio, completo,/dando às coisas/uma solenidade de infinito...” (página 94), ao jeito parnasiano.
Maduro portador do naturalmente intransferível dom de amar, Leal de Queiroz tem um moderníssimo jeito à moda antiga, de falar ao coração. Faz jus ao grego poíesis e ao latim poese. É patriota, profeta e poeta, até pra sempre...


