É preciso conhecer melhor os luminares da cultura Sul-Mato-Grossense
Estamos vivendo profundas transformações neste século, e, buscando respostas, somos levados a ouvir, cada vez mais, as pessoas proativas da sociedade. Diante deste novo mundo, não podemos deixar de consultar a literatura, afinando entendimentos para lançar projetos pela redescoberta da vida e da humanidade.
Afinal, em que os intelectuais de Mato Grosso do Sul poderiam contribuir na descoberta de caminhos por um viver mais pleno aos cidadãos? Procuramos o poeta escritor Guimarães Rocha, membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras. Ele participa do Quebra-Torto com Letras, tradicional encontro que ocorre nas edições do Festival América do Sul.
Nesta edição (29 de abril a 1º de maio de 2010), em Corumbá na escola de artes “Moinho Cultural Sul-americano” a partir de 8h, na abertura, o poeta aborda o tema “Grandezas da Literatura Sul-mato-grossense”. Guimarães Rocha nos concedeu a seguinte entrevista:
MODIFICANDO O PENSAMENTO A LITERATURA RENOVARÁ O MUNDO
P – Sendo o “Quebra Torto com Letras” uma vitrine para a produção literária, de que forma você entende que poderá contribuir para enriquecer o evento?
GUIMARÃES ROCHA – Neste ano de 2010 tenho pensado muito mais em conduzir um processo de resgate da literatura sul-mato-grossense, como um todo, do que propriamente nos projetos pessoais, apenas. Chega uma fase do nosso crescimento, em que compreendemos: para brilhar verdadeiramente a nossa luz, precisamos revelar também as nossas fontes de aprendizado, e então descobrimos que essas fontes têm muito mais a oferecer ainda, para nós mesmos e para os outros. São os nossos escritores regionais, quase todos ainda raramente estudados. É por isso que estou divulgando uma centena de escritores entre os maiores do nosso Estado. Essa promoçãocomeça com o meu novo livro, “Grandezas da Literatura Sul-mato-grossense”.
P – Aonde você quer chegar com isso?
GUIMARÃES ROCHA – Contribuir para o desenvolvimento socioeducacional e cultural do Estado. Todos dizem isso, mas agora eu quero dizer que esse desenvolvimento, para ser real precisa partir de suas raízes. Ora, de dentro pra fora podemos mais, neste caso. A cultura emprestada tem prazo de validade curto. Se nos unirmos para a compreensão do que é nosso, verificaremos que estamos cercados de valiosos pensadores, nossos aliados, profundos conhecedores da nossa realidade. Valorizando-os, entendendo-os e desdobrando-os, aí sim, temos uma identidade e uma postura autêntica para então somarmos com segurança junto aos outros meios culturais do nosso País e do mundo.
P – Como apoiar esses escritores?
GUIMARÃES ROCHA – Comece por entendê-los. Mesmo quando não escrevem sobre os assuntos regionais, estão aqui e produzem aqui, influenciando o meio. Logo, são mais acessíveis, querem e podem compartilhar a cultura em movimento. Não nos esqueçamos do imperativo da solidariedade. Apoiar é criar condições de publicar. O primeiro passo é divulgar, e isso é o que estou fazendo. Divulgando, tenho a esperança de que os nossos escritores sejam relembrados, reeditados, devendo as novas edições sofrer as devidas revisões e melhorias no acabamento dos exemplares da obra. E o que dizer daqueles verdadeiros “monstros sagrados”, hoje em memória? Muitos deles, mesmo tendo sido publicados, décadas atrás, são quase inéditos. Quando os estudamos com atenção, aprendemos, reaprendemos e nos emocionamos até a medula.
P – Será que as novas gerações – grande parte da juventude – não aderem ao cultivo da leitura e da reflexão, por considerarem as ideias ultrapassadas e preferirem apenas desfrutar a vida curta, consumir de tudo cada vez mais e se deleitar com a tecnologia?
GUIMARÃES ROCHA – Não adianta fugir o tempo todo. A vida cobra muito de todas as pessoas, então, gozar a vida é muito bom, mas ela mesma, a existência, exige esforço, estudo e ampliação de consciência, sob pena de a sociedade – e cada um – fracassar em seus objetivos. Uma das soluções excelentes, e, eu diria até econômica, é o retorno às fontes. Literatura não consiste apenas na prática de pessoas chamadas excêntricas ou “intelectuais”. Literatura é povo, é vida, é realização sublime. Se na prática a vida surge de uma vontade: “— Faça-se!”, anteriormente à execução da vontade reside o PENSAMENTO. A literatura é amiga do pensamento.
P – Mas uma grande parte dessa cultura, dessas ideias, não estaria ultrapassada?
GUIMARÃES ROCHA – Tudo passa para sempre, mas tudo retorna e se renova. É importante conhecer, aprofundar-se nos ensinamentos para reter aquilo que é o bem. E não apenas isso. A comparação dos conhecimentos nos leva a optar melhor. A partir de uma escolha e de uma decisão, construímos o novo. Nenhuma ideia é estanque. No próximo minuto, um determinado conceito inovador, poderá estar ultrapassado. Quando ouvimos os outros, saindo da nossa velha mente condicionada, costumamos nos surpreender, verificando que, enquanto nos debatemos procurando longe o que nos satisfaça, um tesouro imenso se expõe no nosso quintal.
P – Fale um pouco sobre a situação atual da Cultura em nosso Estado.
GUIMARÃES ROCHA – Nunca ouve tamanha abertura. Entretanto, a Cultura enfrenta as naturais limitações de recursos e, ainda, certa dificuldade da comunidade em despertar para a necessidade de buscar mais o alimento da cultura e da educação. Falta educação e cultura para o povo, mas, também, há muito benefício nessas áreas, à disposição de todos, mas subaproveitado pela população. Há que, também, de abandonar-se o monismo. Não há um só escritor no Estado, nem apenas um único cantor ou livro, música ou discurso.
P – E as suas andanças?
GUIMARÃES ROCHA – Sou eterno peregrino. Com apoio do Governo do Estado, por meio de suas secretarias, e com outros apoios, pois nada se faz sozinho, tenho agenda repleta para todo o restante do ano de 2010. O foco principal dessas andanças é a palestra conferência “Grandezas da Literatura Sul-mato-grossense”, um livro que em breve lançarei, enfeixando uma centena de autores do Estado. A palestra é variada nos assuntos da literatura local, mas, para não cometer injustiças ao nomear autores, levamos dois grandes nomes para representar a todos eles: Ulisses Serra, fundador da Academia de Letras e História de CampoGrande, que resultou na Academia Sul-mato-grossense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul; e Henedina Hugo Rodrigues, escritora cronista e poetisa, que foi pioneira do ensino e da cultura por ideal, professora catedrática, que firmou e desenvolveu projetos como o Centro de Documentação, Imagem e Memória de MS (CIM) e “Lendo Mais, Sabendo Mais”.
P – E o seu recorde poético?
GUIMARÃES ROCHA – Este fato é largamente conhecido em nosso Estado. A 24 de agosto de 2001, na UCDB, estabelecemos o recorde acompanhado e documentado por equipe técnica da UCDB e Coordenação de Cursos e Reitoria. A documentação foi encaminhada ao Guinness Book: a) o maior tempo de declamação ininterrupta de poesias inéditas e de autoria do próprio declamador (mais de 15 horas); b) a maior quantidade de lançamentos de livros (15 títulos) com poesias inéditas, pelo próprio autor, num único dia, seguidos de distribuição gratuita dos exemplares. Agora contamos com mais de 10 mil assinaturas reivindicando ainda hoje o reconhecimento do recorde, e, nasescolas e pelo site www.guimaraesrocha.com.br, prosseguimos colhendo assinaturas e desenvolvendo esse projeto cultural.
27/04/2010


