Discurso de posse - Guimarães Rocha
Prelúdio da Posse
Discurso proferido pelo acadêmico Antonio Alves Guimarães na cerimônia de posse no
Anfiteatro da OAB em Campo Grande MS, no dia 27 de setembro de 2002.
Excelentíssimas autoridades,
Membros da Academia Sul-mato-grossense de Letra;
Companheiros, Jovens;
Senhoras, senhores;
Abençoe-nos o Senhor, a quem pertence as nossas almas.
Em primeiro plano neste humilde pronunciamento, toda honra a Joaquim Duarte Murtinho, patrono da cadeira número quatro da Academia Sul-mato-grossende de Letras, a quem devemos sagrada reverência, pela função transformadora que impulsionou o progresso no tempo em que viveu na Terra, de 1848 a 1911.
Com a ajuda de Joaquim Duarte Murtinho, um cuiabano, o mundo se tornou mais brasileiro. Gigante da ciência, estadista maior do período republicano, médico e político de renome, insigne escritor, trouxe novas luzes ao nosso meio, e como se vê neste exato instante, continua projetando sua luz, posto que se tornou imortal pela memória.
Alcindo Moreira de Figueiredo, grande profissional médico, ensaísta e cronista, também nasceu em Cuiabá, no ano de 1905. Faleceu no Rio, em 1986. Foi o primeiro a ocupar a cadeira número quatro desta Academia. Figurou entre os melhores alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e nesta Capital Morena proporcionou, a seu tempo os melhores serviços de radiologia do Estado. Especializou-se médico, estudando em vários países, e e brilhou na imprensa local e nacional, prestando ao mundo das idéias uma inestimável contribuição.
O segundo notável a evidenciar-se nesta cadeira, foi o eminente poeta e trovador Rubens Mendes de Castro, que desenhou um caminho de luz nas terras brasileiras. Nasceu na Bahia, em 1915 e retornou à Grande Pátria em 1999.
Em seu poema “No Dia em que Qu Morrer”, o saudoso poeta disse, num lamento: “(...)...E a lua, minha eterna namorada/ Ao sentir-se tão só, tão desprezada,/Não sei que irá fazer!.../Talvez que desvairada e soluçante/ Se esconda numa nuvem do levante, / No dia em que eu morrer! (...)”
E nós, meu amigo, que faremos diante da sua falta?
De minha parte, posso garantir que vou me empenhar reunindo todas as minhas forças, para não apenas ocupar uma vaga, mas honrar a sua memória, lutar a sua luta, erguer bem alto a mesma bandeira de virtude.
Ao ser indicado, eleito, tomar posse e ocupar uma cadeira nesta imortal Academia de Letras, sou tentado a dizer que estou orgulhoso disto. Porém, mergulhando fundo, no sensível coração, o meu olhar de poeta conhecedor do sofrimento das lutas anônimas, peço licença a todos para declarar que o sentimento soberano desta hora, a tomar por inteiro o meu ser, é o do mais pura alegria.
Não é ainda a euforia do triunfo, mas antes uma serenidade alegre.
Sim, faltaram-me ainda todos os triunfos aspirados por minh’alma, que arde por ver o meu povo no rumo da consciência, nos trilhos do real progresso.
Onde a solidariedade entre as camadas sociais?
Onde a amizade sincera no reino da intelectualidade?
Onde a prática segura, constante e eficaz, das boas políticas, pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário?
O que vejo e ouço, por toda parte, são os discursos mais refinados, eloqüentes e convincentes já proferidos na Terra; e o que sentimos na pele e na carne, eu e a minha gente brasileira, é a conseqüência da arrogância , do egoísmo e da ambição, da traição e da malversação, que reinam na esfera íntima dos poderes político, econômico e financeiro, e ainda dos grandes veículos de comunicação, de poderosos estabelecimentos de ensino e até mesmo de certos círculos das denominações religiosas.
A minha entrada, portanto, não é triunfal; porém, se faz alegre pela oportunidade de servir. Apresento-me com passos firmes no chão que é nosso; tenho em mente a compaixão pelos mais fracos e o desejo de compartilhar experiência junto as pessoas de boa vontade.
Não basta criticar, se bem que a crítica construtiva é a advertência benéfica que o bom discernimento nos traz. A capacidade de discenir é o farol que possibilita a positiva modificação da vida.
É preciso construir, transformar, evoluir. Mas, como sermos vitoriosos neste afã, se não nos movimentarmos incessantemente no rumo certo?... E o que é o rumo certo? Muitos nos fazem esta pergunta, e a eles respondemos que o certo é a ação que se move com amor, porque o amor verdadeiro nunca se engana, e o amor verdadeiro é aquele que resulta em benefício de todas as criaturas, sim, e a bem de tudo aquilo a que chamamos natureza.
Sou poeta e guerreiro do bem. Este meu corpo passageiro ostenta uma farda simbolizando a defesa da lei e da justiça, entretanto, acredito que aos regulamentos e aos códigos é imperativo, por prescrição divina, que se acrescente a piedade e a misericórdia.
Se o uniforme nos identifica por fora por dentro a nossa alma exige um traje lirial, e o coração sensível do poeta habitante do mundo interior, deve requerer as armas do perdão e da bondade, da dedicação a serviço do próximo, do desprendimento no rumo da realização espiritual.
Portanto, aqui estamos para contribuir pela maior soma de acertos, ou seja, acertar mais e errar menos.
Acredito na arte da palavra como instrumento de transformação, e o seu dom deve ser o da exaltação da sensibilidade na causa da benéfica construtividade.
Acredito nesta Academia como ferramenta de transformação social, e é nas engrenagens dessa função essencial que espero atuar como elemento catalisador para provocar um novo surto evolutivo.
É do passado que tomamos impulso para chegarmos aqui. Para o futuro rumamos esperançosos, mas o presente nos cobra uma atualização.
A Academia é um agente transformador; e pode se tornar um poderoso centro de forças, para o qual posam convergir variados esforços originários da integração com todos os segmentos da arte, compondo um fulero irradiante do saber e do fazer cultural.
Integração é a palavra ativa pela concretização dos nossos ideais. Integração é o que percebo neste ato, com a nossa admissão a este grupo tão seleto.
Por derradeiro, deixo aqui a minha respeitosa saudação a todos, especialmente nos momentos mais difíceis das lutas que estão por vir.
Contem comigo, como um dedicado elemento que deseja cooperar para que esta casa cumpra seu grandioso destino.
Até sempre! Deus nos conduz.
Obrigado!


