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Discurso em Quixeramobim - Guimarães Rocha

Discurso proferido dia 09/06/2004 em Quixeramobim

Guimarães Rocha

 

           Ao oferecer a minha fraternal saudação às autoridades, senhoras, senhores, jovens presentes nesta casa e neste santuário, eu o faço com o coração chorando e rindo de alegria.

           Sou um filho desta terra, Quixeramobim, e por mais que tenha andado pelo mundo, a alma de menino jamais retirou suas raízes das paisagens do sertão central do Ceará.

           Da sensibilidade poética, me surgem braços imensos que insistem no abraço aos lugares e detalhes simplíssimos e abençoados de um berço que, nos primeiros anos da infância, se estendia à região de Quixadá, e depois Mombaça e vizinhança.

           As igrejas, as águas e terras, o vaqueiro, o poder do boi, as plantações, o alimento forte, as casinhas simples, o carinho das famílias, o aconchego do lar humilde, as antigas canções, os brinquedinhos de criança... Ai, que saudades! O tempo não volta, mas também não pára, e hoje estou reescrevendo a felicidade em meu peito.

           Felizes são aqueles que sabem amar a sua terra natal! É dela que o mundo nasce para nós, é nela que o universo está compactado para alimentar o resto das nossas vidas.

           A ocasião é propícia para enaltecer a força nordestina, nascida do amor e expandida na suportação da dor.

           O prazer de ganhar surge facilmente nas situações favoráveis, mas suportar as perdas e superá-las é um atributo dos fortes. O sertanejo nordestino sabe perder, mas, graças a Deus, não se acostumou a perder e não aceitou o que se chama “destino ruim”.

           Um exemplo claro e imediato de superação de dificuldades é o avanço sócio-econômico que, graças principalmente à exportação do mel, nos últimos anos, verificamos em Mombaça e Solonópole, e depois em Monsenhor Tabosa, Paramoti, Senador Pompeu, Boa Viagem e Irapuan Pinheiro. Somando-se a esse empreendimento, vemos diversos outros, nestas e nas demais regiões deste Estado querido, que ajudam a conter o desemprego e o êxodo da população.

           Presenciando esse sucesso, eu também me sinto bem sucedido e forte, pois, sendo cidadão universal e brasileiro, tenho a alma nordestina e cearense.

           Não sabemos até quando o nordeste, especialmente o sertão, continuará sendo associado maliciosamente apenas à seca e à pobreza.

           Sabemos, porém, que certas pessoas, felizmente não presentes aqui, lucram com esses estigmas, pois os apontam e estimulam para destinar e manipular verbas, mas sem a devida aplicação para combater os problemas.

           Sabemos ainda que a maior riqueza do Ceará é o seu povo. A sua fama, antológica pela religiosidade e penúria, motivou livros, filmes e tratados, mas é chegado o tempo em que a gente desta terra será lembrada não apenas pela resistência aos males que assolam o nordeste, mas também pela capacidade de promover o desenvolvimento em todas as áreas, notadamente pelo ecoturismo, pois o Estado oferece inarráveis belezas naturais.

           Agradeço humildemente, e digo isso com todo o meu amor, pela oportunidade de estar aqui, a convite do personalíssimo professor, escritor historiador Marum Simão, do nobre prefeito Cirilo Antonio Pereira Lima e dos amigos do segmento intelecto-cultural.

           Por derradeiro, coloco-me à disposição desse público seleto em tudo que estiver ao meu alcance, sobretudo para compartilhar os agradáveis momentos desta visita e trocar experiências construtoras de um mundo melhor.

           Muito obrigado, um forte abraço do poeta Guimarães Rocha!

 

Guimarães Rocha