Discurso de Guimarães Rocha no Lançamento do Livro
Autoridades que nos honram com a sua digníssima presença,
Senhoras, senhores, jovens,
O meu sincero agradecimento pela preciosa atenção neste momento de suma importância para todos nós; policiais, profissionais de vários ramos de atividade, intelectuais, estudiosos de todas as áreas do conhecimento, alunos, interessados de diversas formas, críticos, estão todos muito bem-vindos nesta hora solene.
Nenhuma pessoa neste mundo ousaria dispensar proteção. O ser humano é a mais insegura das criaturas, e quando dizemos criatura, queremos significar que faz parte da criação em que Deus é o criador.
É Dele que invocamos abrigo a todo instante, seja em silêncio ou até inconscientemente, seja em palavras suplicantes ou por meio de gritos dolorosos.
Eis, portanto que a defesa divina surge em nossas vidas, materializada em grande parte na força policial quando verdadeiramente consagrada ao Bem. Dizemos assim, porque a ajuda que o Grande Arquiteto do universo nos oferece nesta jornada, ocorre na maioria das vezes através dos nossos semelhantes.
Quero dizer, Deus socorre a pessoa através da pessoa.
E pessoas são imperfeitas, caso contrário não seriam pessoas. Mas todos caminhamos em busca da perfeição, embora haja muitas pedras de tropeço pelo caminho. A segurança pública, como não poderia deixar de ser, está submetida aos ditames da evolução, e a evolução não se dá por saltos mirabolantes, mas, sim, por etapas de esforços construtivos, desenvolvidos por vezes a duras penas.
O coronel Adib Massad faz parte de uma era policial em que só os heróis eram capazes de manter fileiras motivadas a garantir a ordem social, impedir que o forte esmagasse o fraco. Houve um tempo em que propor ou pedir simplesmente provocava risadas desrespeitosas, enquanto impor e ordenar sem trégua eram o único meio de fazer os maus instintos se recolherem ou baterem em retirada.
Hoje os heróis são praticamente dispensáveis. O aprimoramento das leis, a ciência e a tecnologia, o maior acesso ao saber e às oportunidades de trabalho, a multiplicação de escolas e conceitos, a expansão das filosofias e variedade dos métodos já permitem que os homens de segurança estejam cada vez mais conscientes de suas responsabilidades individuais, sem que um pescoço, sozinho, esteja exposto para ser cortado visando silenciar muitas gritarias, veja o caso de Tiradentes e tantos mártires do passado.
O coronel Adib é um desses heróis, e, a exemplo de todo herói, colhe as flores da gratidão, mas também sofreu os espinhos da incompreensão. É uma das poucas histórias individuais que vale a pena contar, já que, como acabamos de dizer, as ações de hoje ocorrem muito mais coletivamente, evitando-se, até, os líderes carismáticos na democracia que se aperfeiçoa. Tenho a glória de escrever e publicar sobre esse herói, não apenas porque a virtude hoje em dia pouco se concentra, mas porque, entendemos, o mundo brasileiro e o mundo sul-mato-grossense precisam resgatar um pouco da verdade a respeito dessa lenda viva, com direito à exportação, e também porque preciso dessa luz e do prazer de a ela me referir.
Um perigo nos ronda, porém, justamente porque vivemos a era das maiores liberdades individuais para ação e reação, num contexto em que a prática policial tem que se reportar a uma corporação que não se pode dar ao luxo de ostentar uma banda limpa e, ao mesmo tempo, suportar alguns elementos que fazem exatamente aquilo que deveriam combater.
Aí é que entra o decantado problema da Educação. O maior desafio do que chamamos educação é fazer com que seja bem definida, entendida e aplicada, para que se torne verdadeiramente uma solução.
Vejam os dilemas enfrentados pela segurança pública. Para resolvê-los, bastariam escolas, academias? Se bastassem, os piores crimes não seriam praticados pelos mais instruídos. No Brasil e no mundo inteiro a criminalidade é motivada, e sustentada, principalmente por elementos considerados ilustres e notáveis da comunidade.
Se o problema da violência, como tantos outros, é a falta de educação, e se o que chamamos educação se resumir apenas em prédios bonitos, lápis, canetas e livros, provas de marcar “X” e monografias copiadas ou apenas enfeitadas com palavras lindas e citações apenas transcritas para agradar avaliadores insensíveis e materialistas, então tudo estaria perdido.
É necessário acrescentar moralidade, fibra e coragem à educação formal. É necessário acrescentar amor às letras mortas. É necessário acrescentar respeito e consideração humana às punições que precisamos aplicar aos criminosos. Pois a punição foi criada para reajuste e não para o banimento e exclusão definitiva do homem. Humanidade não significa a maior parte menos alguns.
Significa a totalidade dos viventes, sem a possibilidade de varrer nenhum deles para sempre. Ilustramos com a citação da Bíblia, antigo Testamento, o livro de Ezequiel capítulo 33, versículo 11: “Por mim mesmo juro — disse o Senhor Deus — que não quero a morte do ímpio, senão que ele se converta, que deixe o mau caminho e que viva”.
O coronel Adib, assim como posso dizer de mim mesmo, não quis da vida apenas a oportunidade da sobrevivência e do emprego, se bem que, pobrezinhos, cada um em sua época depositou na corporação policial a esperança de levantar recursos para nos vestir e nos alimentar, manter as nossas famílias, ter dignidade pessoal e profissional. Nós buscamos educação e continuamos lutando até hoje para nos educar.
Educar, não apenas no sentido de polir a nossa personalidade e ilustrar a nossa imagem. Educar, no superior sentido de nos tornarmos irmãos da humanidade; não aqueles que se contentam em apenas marchar para imitar, mas os que possam merecer o archote da primeira plana, conduzindo os que precisam e, por outro lado, contando com as luzes da nova geração que produzirá muito melhor do que nós mesmos temos conseguido produzir.
Muito Obrigado! Um forte abraço do Guimarães Rocha!
OBS: Discurso proferido, pelo acadêmico GUIMARÃES ROCHA, no Auditório da Casa da Indústria, no dia 12 de Julho de 2007. Campo Grande - MS. Quando do lançamento do livro cel Adib a História.


